"In three words I can sum up everything I have learned about life: it goes on."


Thursday, August 30, 2012

Don't 
Think
I'm ever
Gonna
Figure
You 
Out

Tuesday, August 28, 2012

62

Você bebe demais pra quem se diz tão feliz.
Eu bebo demais pra quem se diz tão triste.
Amanhã choverá de novo e esqueci meu guarda-chuva dentro de um ônibus.
Como esquecer um guarda-chuva enquanto chove torrencialmente lá fora?
Acho que chorei.
O bom de chorar na chuva é que a água lava a alma. As lágrimas.
Era uma pena terem-se acabado até as palavras.
As noite de agosto também já foram-se praticamente todas.
Eu fui ou voltei? Você voltou ou foi?
Com quem meu guarda-chuva está?
Eu prometi que eu não o abandonaria.
Ele era preto e novo. Acho que ele chorou também.
Negros, meus cabelos agora voam com a ventania.
Parou de chover mas o vento ainda é frio e minha roupa está molhada.
Fios cegam minha visão, escorrem pelas olheiras e colam-se nos lábios arroxeados.
O mato verde molhado é bem verde, mas a terra marrom molhada é quase preta.
Você molhada é o que?
Vomitei bile quatro vezes pra ver se passava.
Desconsiderei a impossibilidade de vomitar sentimentos.
A rua está acabando e eu suspeito que é sem saída.
Meu instrutor me disse que em um cruzamento sem saída eu paro e depois viro.
Parei e virei sem olhar nos espelhos.
Tampouco dei seta avisando que mudaria de direção.
Ainda é cedo demais pra chegar ou já é tarde demais pra ir?
Chove de novo e eu só queria meu quarda-chuva.

Saturday, August 25, 2012

61

existe uma razão pela qual eu tenho a palavra fé tatuada em mim
e não é porque eu a possua de sobra
muitos menos por crer em muita coisa
ou muita gente
eu quase não creio em nada,
diga-se de passagem.

mas é por acreditar
que algum dia as coisas mudarão
quem sabe algum dia eu acreditarei
é a vontade de acreditar
que algum dia acreditarei
no que não acredito

meu facebook agora diz
que eu estou ancorada em Florianópolis
cada vez que leio
me dá uma aflição
um arrepio que sobe e desce
algemas geladas em meus pulsos
bolas de ferro pesadas nos tornozelos
afundando-os na areia
refleti:
estaria eu ancorada em uma ilha?
escorada em uma mina?
até que faz sentido

Thursday, August 23, 2012

60

ontem li todas as tuas putarias
doeu um pouco saber
que não foram comigo
senti um pouco de ciumes
por não ser a tua puta
depois passou
lembrei que não
queria a ser mesmo
e mais depois ainda
(re)lembrei que
não sei ser
a puta de quem
gosto, só de quem
não gosto
que inocência a tua
achar que eu não
acharia tuas palavras
parece que nem 
me conhece, embora
talvez nem
me conheça mesmo
fazem cinco dias
que não tenho voz
fazem também
cinco dias
que recebi notícias
devolve, moça
devolve

Sunday, August 19, 2012

59

Li essa frase anteontem, desde então ela permaneceu presa em minha mente, brilhando como letreiros neons dos artistas que eu curto. Ela dizia: "we accept the love we think we deserve".
Imóvel por segundos, talvez tenha finalmente entendido o porquê dessa minha eterna solidão. Eu não acho esse amor dado por aí é suficiente pra mim. Não é por me achar melhor nem nada, mas eu não aceitarei pedaços, nem aturarei dores. Já doeu demais em muitas partes muitas vezes para arranjar mais uma.
Não viverei num bate-rebate, ping pong sem bola que vai, volta, erra, erra de novo, às vezes acerta e depois sorri. Ou chora.
Eu quero curas. Todas as curas e cores, amores e amoras, que alguém que eu ache que me mereça trará algum dia. E é por isso que não aceito ninguém, que interrompo, corto, arranco raízes dessas ervas daninhas que querem me dar algum amor que não é meu.

Excuse moi but I won't accept the love you think I deserve.

Sunday, August 05, 2012

Nuvens carregadas



"Havia parado de chover há cerca de duas horas. A calçada desgastada e irregular formava poças que apareciam a cada três ou quatro passos. Por todos os lados pessoas dançavam se equilibrando com sacolas e guarda-chuvas desviando dos buracos como se reconhecessem a dignidade da água suja que não quer morrer. Eles entendem? Seria muito mais fácil evaporar ou escorrer e dar um fim a tudo isso.

Do ponto de ônibus escoam meninas e meninos entediados metidos em pulôvers segurando cadernos com letras de música. Antes esticar os braços porta a fora porque me distraí contando postes e não sei mais se chove ou se parou de chover. Você ri alto demais pra quem não vê graça em coisa nenhuma. Você passa perfume demais. A mistura do perfume com a poeira me dá vontade de deitar. Esse cheiro é meu ou é seu? Amarre os cadarços e continue caminhando. Sonhei dia desses que as pessoas se ajoelhavam pra amarrar seus cadarços e não paravam nunca mais amarrando suas pernas e seus braços e troncos até na Terra só existirem múmias. Você tropeçou ao se abaixar pra amarrar os cadarços e levantou tonto não lembrando se ia ou voltava. E assim te perdi pelo caminho.

Saímos do ônibus com dezenove anos e chegamos na porta de casa com vinte e quatro. Acho que dormi.

A cidade está sob séria ameaça de outra tempestade. Depois de limparmos nossos sapatos e tirarmos nossas roupas molhadas e abrirmos nossos guarda-chuvas na varanda poderíamos muito bem fingir que a outra chuva nunca existiu. Não fossem as poças. Você acha mais bonito quem fica ou quem vai?

Me olham como se eu não devesse estar aqui.  Me olham como se eu devesse tremer e tombar. Me olham como se  a minha única saída agora fosse cair de boca no chão.

Vou amarrá-los todos em si próprios. Mumiazinhas com medo de viver e de morrer."